
Sua pele exalava um cheiro de raiz que penetrava pelas minhas narinas, inundava meu corpo, me deixava louco, adia de tesão. Nunca subestime o cheiro, ele é poderoso em todas as ocasiões, muito marcante e faz parte da memória de qualquer pessoa.
A primeira vez que o vi eu estava no metrô, era quase noite, tudo lotado, estava encostado quase com o focinho na porta, senti uma leve pinçada na panturrilha direita, olhei para traz e deparei com aquele deus grego vestido de macacão de operário dos anos 30, não escondi meu encantamento e lhe ofereci um sorriso largo.
Ele se aproximou mais e foi encostando logo senti um volume imenso crescendo atrás de mim.
A porta se abriu e era a minha estação. Eu subi as escadas acompanhado pela turba de cansados e ansiosos para chegar em casa. Atravessei a rua e notei que o deus grego estava me seguindo, fingi que não via, entrei na portaria do prédio e tomei rumo ao elevador, alguém se aproxima da porta e pula apressado para o interior no momento exato em que a porta iria se fechar. Era ele. Um silêncio pairou no ar mofado do elevador, olhei para ele e perguntei para disfarçar, mora aqui no prédio? –sim, sou seu vizinho, moro aqui a duas semanas apenas. Convidei-o para um café em minha casa, ele prontamente aceitou, chegou na sala e sentou no meu sofá.
Jamais esqueci aquele cheiro de café coado misturado com o odor de raiz que vinha do corpo dele. Nunca transei com ele, mas me excito todas as vezes que o vejo no elevador.